Queda no preço do petróleo abala países e causa recessão no mercado mundial

09:00 Fagner Soares 0Comentários

A queda no preço do barril do petróleo tipo Brent, cujo valor já diminuiu 20% apenas nos primeiros dias de 2016, tem como principal causa uma disputa estratégica entre Estados Unidos e Arábia Saudita, que tem dividido a economia mundial e provocado fortes crises em países como a Venezuela e a Rússia.

O fenômeno também é o maior responsável por uma recessão no mercado ligado a este combustível fóssil, ainda a principal fonte de energia mundial. Nesta segunda-feira (18), o barril fechou em US$ 28,55, no mais baixo patamar desde 2004.

Conforme disse ao R7 o consultor John Albuquerque Forman, especialista em energia, petróleo e gás, a Arábia Saudita tem forçado a queda do preço do barril para tentar tirar os concorrentes do mercado.

Para ele, mais do que a diminuição de consumo por causa das questões ambientais, a queda é uma resposta à crescente produção nos Estados Unidos, que "encharcou" o mercado e aumentou de forma impactante a oferta, após um forte incremento em sua infraestrutura e um intenso crescimento na produção do chamado xisto (outro combustível fóssil).

— As energias alternativas, como eólica e solar, ainda não são suficientes para diminuir o consumo de petróleo em curto prazo. O fato é que os Estados Unidos estavam ficando praticamente independentes de importação de petróleo e, então, a Arábia Saudita optou por não perder uma parcela do mercado, jogando o preço para baixo e forçando as produções de maior custo a saírem do mercado. O custo de produção da Arábia Saudita é muito baixo. Ela deixa de ganhar mas não perde dinheiro.

Os americanos, em 2014, ultrapassaram a Arábia Saudita como os maiores produtores de petróleo no mundo, chegando a 11,6 milhões de barris por dia. Temerosos em relação ao poderio americano, vários países da Opep seguiram o exemplo da Arábia Saudita e mantiveram a produção apesar da queda.

Nem todos, porém, se alinham completamente a esta política. O Irã é um deles. Após o rompimento das relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Irã, no início de janeiro, interesses em relação ao petróleo deram novos ingredientes à discordância entre os dois países. Para o Irã, a baixa dos preços do barril não é interessante.

O país, com isso, deverá manter a cautela em seu retorno às negociações com o Ocidente, após o fim das sanções, no último dia 16. Mesmo já produzindo mais de 1,5 milhão de barris por dia, o Irã deverá entrar novamente nesse mercado por meio de exportações graduais, a partir de julho, iniciando com a venda de cerca de 500.000 barris a mais por dia, segundo Forman.

— Os iranianos não querem jogar um volume grande no mercado para assim forçar uma queda menor do petróleo. Se o preço diminui eles também saem prejudicados.

Economias abaladas

Além da Rússia (terceiro maior produtor) e da Venezuela, cuja receita depende em mais de 90% da venda de petróleo, a postura saudita, segundo Forman, causou abalos em economias de outros produtores que não fazem parte da Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo).

— Enquanto isso, há muitos países perdendo dinheiro. A Venezuela é um deles, a Noruega (maior produtor da Europa Ocidental) está perdendo e várias áreas do pré-sal no Brasil ficam inviáveis em termos de exploração. A Rússia, que tem uma economia profundamente dependente do petróleo, também está sofrendo com essa queda.

O economista Chau Kuohue, mestre em Finanças pela Fundação Getúlio Vargas, também ressalta que esse jogo de interesses está encurralando vários países. Um exemplo disso é o Canadá, quarto maior produtor mundial. Projetos canadenses da Shell e da Cenovus Energy Inc., na região de Alberta, foram cancelados no segundo semestre de 2015. Diante de tais circunstâncias, a província canadense perdeu, só no início do ano passado, cerca de 14 mil empregos, situação que se repete em vários outros países.

A Noruega é um deles. Com cerca 35% de suas exportações provenientes da venda de petróleo, o país nórdico pode perder dois terços da renda obtida com o produto diante dos baixos preços. A crise do petróleo é determinante para o índice de desemprego local, que em maio último estava em 4,3%. Kuohue não tem dúvidas de que o mercado petrolífero já está em uma forte recessão.

— O medo do mercado já está causando ondas de demissões. Além do desemprego, há também os bancos que têm empréstimos vinculados a empresas petrolíferas. Sem receber esse passivo (as dívidas) precisam de outra alternativa para não causar prejuízos maiores ao mercado. Nos Estados Unidos, bancos anunciaram que vão aumentar a provisão (abastecimento de dinheiro) para se prevenir.

Desaceleração na China

O economista ressalta ainda que a China, cuja economia tem registrado crescimentos menores nos últimos meses, também tem influência nessa queda de preços. Apesar de ser o quinto maior produtor mundial, a China é também um dos maiores importadores de petróleo.

— A China tem uma representatividade grande no consumo do petróleo. E a desaceleração da demanda pelo item no país contribui para a baixa do preço no mercado internacional.

Essa queda de braço artificial preocupa Kuohue, que considera a possibilidade de muitos países pararem a produção diante deste cenário.

Com a ascensão dos Estados Unidos, uma nova era de incertezas surgiu em relação ao petróleo. Ele vê, com isso, uma situação similar a um "beco sem saída."


— Estamos diante de um quebra-cabeça estranho. Se os países pararem a produção e o preço voltar a subir, a produção será retomada já que, no caso do petróleo, a infraestrutura local estará montada. E novas baixas forçadas poderão ocorrer a partir daí, em um sobe e desce contínuo.

Fonte: R7
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