Artista juazeirense prima pela minúcia de suas esculturas

11:35 Fagner Soares 0Comentários

A arte nordestina está inscrita na madeira de um dos artesãos inatos da região do Cariri, que decidiu, desde criança, investir no seu ofício. O desafio foi começar. Mesmo realizando acabamento de trabalhos dos outros artesãos, Aparecido Gonzaga Alves, o Din, observava minuciosamente como era cada peça, principalmente o rosto das esculturas. Para ele é o detalhe que faz a grande diferença no todo.

Hoje, tem suas obras inspiradas em grandes personalidades da arte e da religião, no Nordeste Brasileiro, que estão presentes em vários países do mundo e praticamente todo o Brasil. Neste momento, está finalizando uma escultura de Luiz Gonzaga, para ficar exposta no Centro de Tradições Nordestinas (CTN), em São Paulo, com inauguração prevista para a comemoração dos 25 anos do local.

Din vem de uma família de artesãos e xilógrafos, de Juazeiro. O artesanato é uma tradição de berço. O sonho o moveu para o aprendizado no talhado da madeira, e isso fez com que continuasse a desenvolver esse trabalho. Ele lembra de suas origens, a partir do local onde deu os seus primeiros passos na vida.

Espaço
O artesão nasceu na antiga localidade designada de Boca das Cobras, um pouco abaixo da Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, na cidade do Padre Cícero. De lá saíram muitos artistas. Era o espaço familiar dos artesãos, que atualmente não existe mais na cidade.

Com a transferência da vila onde nasceu, decidiu ir para o espaço que o formou definitivamente na arte, o Centro de Cultura Popular Mestre Noza. No local, continuou a realizar o mesmo ofício de lixar as obras e dar o acabamento.

As primeiras esculturas em madeira produzidas por ele foram as de Nossa Senhora Aparecida e São Francisco. Mas, como Din mesmo descreve, na metade do caminho decidiu mudar o rumo de suas produções, desenvolvendo o seu próprio estilo.

Atualmente, faz mais peças de Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, e a inspiração que diferencia o seu trabalho são as esculturas que ele chama de estilo "anão", espécies caricaturais de qualquer personagem, segundo ele, que se queira fazer.

A técnica veio a partir da observação. Cada artista, para ele, imprime uma marca em seu trabalho e, para que o seu fosse diferenciado, pensou numa alternativa de criar os "anões". Aos poucos foi aprimorando. "Já criei esse estilo de esculturas gordinhas e com os pés grandes também, para tirar a base", explica.

Admiração
A iniciativa de trabalhar com personagens, como o Luiz Gonzaga, veio da admiração pelo artista. Até mesmo traz no nome Gonzaga. Além dele, Lampião, Maria Bonita, Patativa do Assaré e Antônio Conselheiro. "Para mim é uma alegria poder trabalhar com essas personalidades que admiro e levar para o Brasil e para o mundo", diz. O seu trabalho está presente na Itália, França, Portugal e Inglaterra. Em Washington, nos Estados Unidos, ele chegou a esculpir a Monalisa, em madeira.

Recentemente, Din fez uma imagem de Patativa do Assaré para admiradores do poeta. São trabalhos que trazem uma característica bem peculiar, o que chama a atenção dos apreciadores das esculturas.

Originalidade
O lugar de produção é simples. Nos pátios do Mestre Noza, onde a criatividade dos artistas flui, e há arte por toda parte. No começo do ano, Din chegou a ganhar um concurso de presépios natalinos da Central de Artesanato do Ceará (Ceart), com a melhor votação do público e ficou em quatro lugar, com a avaliação da comissão julgadora. A originalidade foi uma das características muito marcantes desse trabalho, com todos os personagens esculpidos na madeira.

Din afirma que não tem o que reclamar em relação à crise para seu trabalho, pois as encomendas continuam sendo feitas. Mais uma escultura em madeira de Luiz Gonzaga está sendo produzida, em tamanho natural, desta vez o cantor montado em um jumento. É um trabalho que ele considera minucioso. Desde a produção do gibão de couro, todos com detalhes diferenciados, como também da sanfona.

Além do estilo peculiar, também produz personagens de forma normal. Não há uma padronização. E cada uma dessas imagens está gravada em sua mente cheia de imaginação para compor tantas peças diferentes, de um só artista.

A última delas possui cerca de dois metros, por conta do chapéu de couro e a base. O trabalho foi produzido em três meses, com cedro, por não ter umburana em tamanho específico para essa escultura. Mas, para poder produzir em madeira de lei, precisou de licença do órgão ambiental. As madeiras adquiridas no centro normalmente são de áreas de manejo.

Alguns artistas que ficam de forma permanente no Centro de Cultura Mestre Noza, produzem imagens diferenciadas, a maioria deles é especializada em santos, além de expor em seus trabalhos a característica da cultura local. Din afirma que não produz esculturas do Padre Cícero, por já ter outro artista especializado no local.

Quantidade
Din não tem ideia de quantas peças já chegou a produzir, mas imagine que mais de duas mil das suas imagens estão no mundo afora, sempre recebendo elogios e o reconhecimento pelo primor de como lida com as minúcias em sua arte.

Algumas das suas esculturas estão em lugares de destaque, a exemplo do Memorial da América Latina, em São Paulo; Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro; além do Centro de Convenções de Salvador; e do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, por onde esteve expondo seu trabalho.

Uma das principais formas de divulgar a sua arte é por meio das exposições que tem participado. Todos os anos, ele também realiza oficinas. No ano passo, esteve realizando uma no Rio de Janeiro, no Museu de Janete Costa. Neste ano, já tem programada mais uma oficina em Parati, também no Rio.

Dificuldades
Ele diz que, mesmo não sendo tão atingido pela crise financeira, há outros artistas que ficam no meio do caminho, por falta de condições materiais para desenvolver seus talentos. Isso porque o ofício exige dedicação e envolvimento total com o objeto da criação. Com isso, reconhece que é um ofício nada fácil para sobreviver. A escola é permanente no Mestre Noza. Din faz parte da terceira geração da entidade.

Diante das dificuldades iniciais, inclusive pelo pouco valor que se dá à arte popular, houve momentos não muitos felizes para o escultor. O artista pensou em desistir do seu trabalho no começo, mas hoje já é bem mais simples seguir estrada. Din conta que a arte está mais moderna, no sentido de ter outras formas de passar os ensinamentos, com as oficinas. Para ele, a trajetória foi de sucesso e toda a adversidade já vivida acabou se transformando em sublimação.

Mais informações:
Centro de Cultura Popular Mestre Noza
Rua São Luiz, 96 - Antigo Quartel
Juazeiro do Norte
Telefone: (88) 9 9974-2120

Fonte: Diário do Nordeste

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